sexta-feira, 4 de julho de 2014

Prédio da URBEL da PBH E PORTA DA PREFEITURA DE BELO HORIZONTE CONTINUAM OCUPADOS POR TEMPO INDETERMINADO PELO POVO DE 13 OCUPAÇÕES DE BH E REGIÃO METROPOLITANA DE BH.

Prédio da URBEL da PBH E PORTA DA PREFEITURA DE BELO HORIZONTE CONTINUAM OCUPADOS POR TEMPO INDETERMINADO PELO POVO DE 13 OCUPAÇÕES DE BH E REGIÃO METROPOLITANA DE BH. BH, 04/07/20014, às 08:15h.

Ontem, dia 03/07/2014, às 23:10h, terminamos a ocupação do prédio da Advocacia Geral do Estado de MG (AGE), na R. Espírito Santo, centro de Belo Horizonte, MG, porque tivemos conquistas diante do Governo de MG. O Dr. Rômulo Ferraz, secretário da SEDs, convocou formalmente REUNIÃO DE NEGOCIAÇÃO para o dia 17 de julho, às 14:00h, na Cidade Administrativa. Já estão convocados para essa reunião o Governo Federal (Ministério das Cidades, Secretaria Geral da Presidência), Ministério Público área de Direitos Humanos, Defensoria Pública área de direitos Humanos, TJMG, CNJ, Movimentos Sociais (CPT, MLB, Brigadas Populares), representantes das Ocupações, isso para continuar o processo de negociação. Dr. Rômulo, da SEDs, assumiu compromisso de que até o dia 17/07 não terá despejo. E que seguirá com o processo de negociação. Diante da sensatez do Dr. Rômulo, da SEDs do Governo de MG, e em atitude de que primamos pelo diálogo e pela negociação liberamos o prédio da AGE, mas o prédio da URBEL e a porta da PBH, na Av. Afonso Pena, continuarão ocupados por tempo indeterminado até o prefeito de BH, Márcio Lacerda (PSB), mandar o seu chefe de gabinete, Josué Valadão, e secretários/”presidentes” da SUDECAP, ISMARU e ISMAPU para se reunirem com lideranças das ocupações e dos movimentos sociais e com o Juiz Dr. Magid, da 1ª Vara de fazenda Pública Municipal na URBEL. Isso por que em 4,5h de reunião de tentativa de conciliação presidida pelo Dr. Magid, juiz titular da 1ª Vara pública municipal, o que tem em mãos pedido de reintegração de posse do prédio da URBEL, o Cel. Bicalho, presidente da URBEL, único representante da PBH na reunião, repetiu à exaustão o refrão: “Não posso assumir esse compromisso...” “A URBEL não tem competência para isso. A Competência é da SUDECAP, ISMARU E ISMAPU...” Por isso o povo continuará exigindo na luta coletiva e na garra a presença dos presidentes/diretores da SUDECAP, ISMARU e ISMAPU e do chefe de gabinete do prefeito Márcio Lacerda para reunião na URBEL, o mais urgente possível. Se o povo tiver que trancar o trânsito, em última instância quem estará trancando o trânsito será o prefeito de BH e a PBH, pois continua intransigente, insensível e com uma postura temerária ao insistir numa postura de falta de diálogo e de repressão às ocupações urbanas de BH. O déficit habitacional em BH está acima de 150 mil moradias. BH é a capital que menos construir casas pelo Minha Casa Minha Vida para famílias de zeroa a tr~es salários mínimos, apenas 1.380 aprtos de 49 m2, apertamenos, cúbicos que não é moradia digna. E mais: nos últimos 5 anos, mais de 10 mil casas em BH foram demolidas pela prefeitura. Enfim, o prefeito de BH mais destrói casas do que constrói. Já expulsou para fora de BH mais de 6 mil famílias. Isso é intolerável. Por isso o povo das ocupações seguirá lutando ... Queremos terminar o quanto antes da ocupação da URBEL, mas o povo não sairá do prédio da URBEL sem conquistas, sem compromissos assumidos inclusive pela prefeitura de BH. A luta continua com garra! Até a vitória! Pátria livre!
Abraço na luta. Frei Gilvander Moreira, assessor da CPT.

Contatos para maiores informações:
Com Poliana (cel. 31 9523 0701), com Leonardo (cel.: 91330983), com Rafael Bittencourt (cel.: 31 9469 7400) ); ou com Charlene (cel.: 31 9338 1217 ou 31 8500 3489); ou com Edna (cel.: 31 9946 2317); ou com Elielma (cel.: 31 9343 9696).

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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Está tendo COPA. Terá que ter casa para os sem-casa! POVO DAS OCUPAÇÕES EM LUTA OCUPAM URBEL, AGE E PORTA DA PBH. BH, 02/07/2014.

Está tendo COPA. Terá que ter casa para os sem-casa!
Release e Nota à Imprensa e à sociedade. URGENTE.

Assunto urgente: Sete Ocupações Urbanas de Belo Horizonte, uma de Contagem e outra de Ribeirão das Neves, na manhã de hoje, quarta-feira, dia 02 de julho de 2014, ocuparam simultaneamente por tempo indeterminado a sede da URBEL (na Av. Contorno, esq. Com R. Bahia, em BH),  a sede da AGE (Advocacia Geral do Estado de MG) e acamparam na porta da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), na Av. Afonso Pena, onde estão bloqueando o trânsito!


As ocupações urbanas Dandara (com 1.140 famílias), no Céu Azul; Eliana Silva (com 350 famílias) e Nelson Mandela (com 400 famílias), no Barreiro; Rosa Leão (com 1.500 famílias), Esperança (com 2.560 famílias), Vitória (com 4.500 famílias) e Zilah Spósito/Helena Greco (com 180 famílias), na região do Isidoro; Cafezal (com cerca de 100 famílias), Jardim Getsêmani (com mais de 100 famílias, em Belo Horizonte), Guarani Kaiowá (com 150 famílias, em Contagem) e Tomás Balduíno (com 500 famílias, em Ribeirão das Neves) ocuparam hoje, quarta-feira, dia 2 de julho de 2014, por tempo indeterminado, simultaneamente, a sede da URBEL (na Av. Contorno, esq. Com R. Bahia, em BH),  a sede da AGE (Advocacia Geral do Estado de MG) e acamparam na porta da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), na Av. Afonso Pena!
O objetivo central é exigir do PODER PÚBLICO MUNICIPAL de Belo Horizonte e ESTADUAL (Governo de Minas Gerais) o fim dos despejos forçados e o provimento imediato dos serviços urbanos essenciais, tais como saneamento básico, água e eletricidade em todas as comunidades fruto de ocupações!
A prefeitura de Belo Horizonte e o Governo do Estado de MG viabilizaram a Copa do Mundo em Belo Horizonte em grandes projetos de infra-estrutura urbana que não contemplam as necessidades básicas da população mineira (direito à habitação, água, luz, esgotamento e outros).   Esboçando um quadro rápido desta inversão de prioridades públicas, fomos testemunhas:  mais de 20 milhões de reais dos recursos municipais foram destinados à instalação da estrutura temporária  do evento Fifa Fan Fest(http://goo.gl/chBFhY); a adoção de um modelo de mobilidade urbana que  o povo experimenta sua ineficiência a cada dia que passa (http://naomove.com.br/); a surpreendente reforma do Mineirão que levou mais de 700 milhões de reais de recursos estaduais e que culminou na sua concessão à iniciativa privada (http://goo.gl/jvzLs5), entre muitas outras obras e preparativos para a COPA que aprofundaram um modelo de cidade para poucos!
Enquanto isso, cerca de 80% dos assentamentos de baixa renda da Região Metropolitana de BH (RMBH) não possuem condições apropriadas de saneamento básico (PLHIS, 2010); o déficit habitacional da grande Belo Horizonte gira entorno de 200 mil moradias, 150 mil moradias já em 2010 (IPEA, 2010) e mais de 15 mil famílias vivem sob a insegurança da posse em ocupações urbanas, convivendo diariamente com o terror da ameaça de despejo pelas forças policiais e a ausência completa de políticas habitacionais e de infraestrutura urbana da parte da PBHe do Governo de MG!
Além da inversão de prioridades dos gastos públicos para a COPA combinados com a ausência de políticas urbanas de provisão de direitos básicos, a COPA do Mundo trouxe outro legado perverso para Minas Gerais: o fortalecimento, sem limites legais bem definidos, da ação repressiva da polícia militar sobre os movimentos sociais e comunidades vulneráveis. O Estado de Minas Gerais gastou milhares de reais no treinamento das forças de segurança pública, foram comprados milhões de reais em armas de baixa letalidade, como bombas de gás e efeito moral, balas de borracha, armas de choque elétrico (teaser), um tanque armado com canhão sônico (!) e mais dois novos e gigantes CAVEIRÕES! Todo esse aparato bélico está nas ruas durante todo este mês sob o testemunho de todo cidadão belohorizontino. A pergunta que fica agora é: passada a Copa, para que servirá esse aparato de guerra? 
Por isso que os movimentos  sociais e as ocupações urbanas vêm diante da sociedade civil mineira, brasileira e internacional gritar: não podemos permitir que o legado de militarização e repressão recaia sobre milhares de famílias que vivem hoje em condições precárias de moradia e insegurança da posse! Não podemos admitir que o aparato de guerra adquirido para proteger a COPA da FIFA seja alocado agora a serviço de guerra contra os pobres que lutam por direitos fundamentais nas ocupações urbanas! Queremos o direito à cidade, como moradia digna e comunidades, assentamentos e ocupações com infraestrutura urbana adequada!  
Nesse sentido exigimos da Prefeitura de Belo Horizonte e do Governo de Minas, como condição para o fim da ocupação das administrações públicas:
1)   Reunião nesta tarde de quarta-feira, dia 02 de julho, com representações dos movimentos sociais envolvidos, lideranças das ocupações e representantes diretos do Prefeito de Belo Horizonte e do Governador do Estado de Minas Gerais, para encaminhar:

a) A garantia, assinada pelo Prefeito de Belo Horizonte e o Governador do Estado de Minas Gerais, de que não haverá remoção forçada após a COPA das ocupações: Rosa Leão, Esperança, Vitória e Nelson Mandela (Belo Horizonte), Guarani Kaiowá (Contagem) e Tomás Balduíno (Ribeirão das Neves). A garantia de que se esgotará todas as possibilidades de negociação em busca de uma alternativa justa e pacífica que contemple o direito à habitação digna e própria de todas as famílias envolvidas, antes que qualquer tentativa precipitada de reintegração de posse!

b) A efetivação dos projetos de infraestrutura urbana básica (Luz, água, esgotamento sanitário, pavimentação) e da regularização fundiária das ocupações urbanas socialmente reconhecidas como assentamentos consolidados e irreversíveis, notadamente, Ocupação Dandara, Eliana Silva, Camilo Torres, Irmã Dorothy, Zilah Spósito/Helena Greco, Cafezal e bairro Jardim Getsêmany!

2) E compromisso com a transformação do território das Ocupações Rosa Leão, Esperança e vitória em ASEIS 2, de modo que as três ocupações (8 mil famílias pobres) que já estão em franco processo de consolidação se transformem em bairros , locais de moradia para famílias de zero a três salários.

3) Cumprimento do que foi acordado em reunião de negociação dia 21/03/2014, assinado em Ata de Reunião: “Será feito um RECADASTRAMENTO de todas as famílias das Ocupações Rosa Leão, Esperança e Vitória, no prazo de 20 dias (se necessário, haverá prorrogação do prazo). O Novo cadastro será feito em parceria pela PBH/URBEL, Prefeituras de Santa Luzia, Vespasiano e Ribeirão das Neves, Ministério Público, Defensoria Pública de MG, Comissão de Direitos Humanos da OAB/MG, Movimentos Sociais e Coordenações das Ocupações. Isso para que saia um cadastro idôneo.” (Cf. Ata de Reunião.)

4) Encaminhamento de proposta defendida também pela Defensora Pública Geral da DPE/MG, em reunião do dia 21/03/2014: Suspensão imediata de todas as ordens de reintegração de posse das comunidades Guarani Kaiowa, Esperança, Rosa Leão, Vitória e William Rosa, enquanto se desenvolve o processo de Negociação.

5) Exigimos que a juíza Luzia Divina abra vista dos processos da Ocupações Rosa Leão, Esperança e Vitória ao Ministério Público e à Defensoria Pública, área de Direitos Humanos.

6) Do atual Presidente do TJMG exigimos encaminhamento de pedido formalizado em reunião com 3 juízes assessores da Presidência do TJMG, dia 24/04/2014: Instauração de um processo de Conciliação em 2° Instância, sob a coordenação do 3º Vice-presidente do TJMG, procurando a paz social e eliminando o risco de violência.

7) Que o Procurador Geral do Ministério Público de MG, Dr. Carlos André, reafirme e assine as Recomendações das promotoras do MP da área dos Direitos Humanos, exigindo que os direitos humanos fundamentais sejam respeitados nas ações da Polícia Militar e Civil.

Assinam essa Nota Pública:
Coordenações das Ocupações Rosa Leão, Esperança, Vitória, Zilah Sposito/Helena Greco, Eliana Silva, Nelson Mandela, Cafezal, Jardim Getsêmani (todas em Belo Horizonte), Guarani Kaiowá (em Contagem) e Tomás Balduíno (em Ribeirão das Neves),
Brigadas Populares – Minas Gerais
Comissão Pastoral da Terra (CPT-MG)
Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB)
Comitê Popular dos Atingidos pela Copa

Contatos para maiores informações:
Com Poliana (cel. 31 9523 0701), com Leonardo (cel.: 91330983), com Rafael Bittencourt (cel.: 31 9469 7400) ); ou com Charlene (cel.: 31 9338 1217 ou 31 8500 3489); ou com Edna (cel.: 31 9946 2317); ou com Elielma (cel.: 31 9343 9696), ou com frei Gilvander (cel. 31 9473 9000)

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terça-feira, 24 de junho de 2014

Nova Ocupação em terreno do CEASA, em Contagem, MG, ao lado da Ocupação William Rosa, com cerca de 600 famílias sem-terra e sem-casa.

Nova Ocupação em terreno do CEASA, em Contagem, MG, ao lado da Ocupação William Rosa, com cerca de 600 famílias sem-terra e sem-casa.
Parabéns ao Povo da Ocupação William Rosa e a outras 600 famílias que ocuparam hoje outro terreno "do CEASA", em Contagem, MG, terreno abandonado há séculos, sem cumprir função social, servindo para especulação. Só na luta coletiva a casa própria e digna, um direito constitucional, sai do papel e se constrói. A tensão é grande no local, pois a PM está no local. Sem decisão judicial de reintegração e sem alternativa digna não é admissível despejo. Pátria Livre! Venceremos! Abraço na luta. Frei Gilvander Luís Moreira
Cf. Nota no link, abaixo:

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Grandes projetos, um tormento na vida dos pobres, texto de frei Gilvander. BH, 23/06/2014.

Grandes projetos, um tormento na vida dos pobres[1]
Gilvander Luís Moreira[2]

Vivemos um tempo perigoso. O capitalismo, máquina de moer vidas, está funcionando a todo vapor triturando vidas de bilhões de pessoas e de outros seres da biodiversidade. Estamos em tempos de fundamentalismos, de céus povoados de anjos e entidades, de demônios por todos os lados, de gritaria de deuses, de promessas, de busca insaciável de bênçãos, de procissões, de peregrinações, de necessidade de expiação, de moralismos, de religiões sem Deus, de salvações sem escatologia, de cristianismos light, de libertações que não vão muito além da autoestima. Enfim, tempos de autoajuda, de dar um jeitinho para ir empurrando a vida.
Clamores ensurdecedores brotam dos porões da humanidade. A mãe Terra clama para ser salva, pois está sendo crucificada impiedosamente pelos grandes projetos capitalistas. Medo, insegurança e instabilidade atingem a todos. Atualmente insiste em imperar uma mística anti-evangélica do descompromisso com os pobres. Estes, além de empobrecidos, são marginalizados, injustiçados e acusados de serem os responsáveis primeiros pela sua situação de miséria. Inverte-se a realidade: os verdugos tentam parecer bons samaritanos. As vítimas são consideradas vagabundas, irresponsáveis e bagunceiras.
A estrutura de violência e de exclusão fragmenta multidões, deixando as pessoas em cacos. É hora de recompor os cacos em um grande e articulado mosaico.  É hora de reintegrar as nossas forças e energias vitais.
Em 2014 no Brasil, e na maioria dos países do mundo, o povo vive sob as agruras e o tormento dos grandes projetos. Por aqui estes são executados em nome do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento -, no Nordeste, apelidado de Programa de Ameaça às Comunidades. Dentre os grandes projetos do PAC, os de maior impacto são: as grandes barragens e usinas hidrelétricas, como as de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia; a barragem e hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, em Altamira, no Pará; a Transposição das águas do rio São Francisco; construção de vários portos e aeroportos e ampliação e modernização de outros; fusão de grandes empresas que concentram cada vez mais o capital e vão matando as pequenas empresas. Exemplos não faltam nas áreas de telecomunicações, de aviação, das construtoras, dos grandes supermercados, dentre muitos outros. Muitos pensam que esses projetos beneficiam todo o povo, mas, na realidade, tratam-se de infraestrutura para viabilizar o crescimento do capital, hoje primordialmente nas garras de empresas transnacionais. Quase sempre esses grandes projetos são realizados por grandes empresas, mas por meio de financiamento público, via BNDES[3].
A chegada de um grande projeto é sempre envolvida por campanha publicitária espetacular que anuncia estar chegando à região uma alavanca de desenvolvimento social, geradora de emprego e que não irá causar grandes males à já tão sofrida natureza, a biodiversidade e às pessoas. Chefes da política, da economia e até da religião são cooptados e muita gente seduzida. Assim, a massa acolhe esses projetos como se fossem benfeitores que trarão emprego e melhorias sociais, mas, logo, descobre que se gera poucos empregos e, muitas vezes, em condições análogas à de escravidão. Acontece o que ensina a fábula do Escorpião e o Sapo, que diz: um escorpião pede a um sapo que o leve através de um rio. O sapo tem medo de ser picado durante a viagem, mas o escorpião argumenta que não há motivo para o sapo temer tal traição, pois se picar o sapo, esse afundaria e o escorpião da mesma forma iria junto afogar.  O sapo concorda e começa a carregar o escorpião, mas no meio do caminho, o escorpião, de fato, aferroa o sapo, condenando ambos. Quando perguntado por que, o escorpião responde que esta é a sua natureza. Isso mesmo: a natureza do capitalismo é aferroar vidas o tempo todo e cada vez com mais veneno. O funcionamento do capitalismo exige expansão, crescimento sem limites. Isso é impossível pois a natureza precisa de tempo para se recuperar das agressões. A mercadoria, base da acumulação do capital, destrói o ambiente e explora os trabalhadores. Portanto, não dá mais para acreditar que na nossa caminhada na vida o capitalismo seja a melhor companhia.
Por tudo isso, é um imenso desafio enfrentar o poder opressivo do capital diante desses mega projetos. Voltando o nosso olhar atentamente para as narrativas bíblicas, percebemos que o povo da Bíblia também experimentou na própria pele as agruras de grandes projetos. Resgatar um pouco do que foram esses grandes projetos e como o povo bíblico resistiu diante deles, talvez possa inspirar em nós táticas e estratégias para o enfrentamento aos grandes projetos de hoje. Isso é o que veremos nas próximas partes do Artigo “Grandes projetos na Bíblia e a Resistência do Povo”.
Belo Horizonte, 23 de junho de 2014.




[1] Eis aqui a 1ª parte do Artigo publicado na Revista Estudos Bíblicos, Vol. 30, n. 120, out/dez 2013, pp. 339-358.
[2] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutorando em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos de Minas Gerais – CONEDH. E-mail: gilvanderlm@gmail.com  – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br - http://www.twitter.com/gilvanderluis -    facebook: Gilvander Moreira  

[3] Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Mas o “social” está esquecido, desenvolve-se o econômico às custas do social.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Carta aberta aos juízes: o preço de um despejo sem alternativa digna. BH, 13/06/2014.

Carta aberta aos juízes:
o preço de um despejo sem alternativa digna.
Gilvander Luís Moreira[1]

Belo Horizonte, MG, Brasil, 13 de junho de 2014.

Srs. Juízes, desembargadores e ministros do poder judiciário brasileiro, já que é tão difícil falar com vocês diretamente, o jeito é escrever-lhes uma Carta Aberta, pois o que está ocorrendo é muito grave. Espera-se de um juiz que ele faça justiça, mas as decisões judiciais - regra geral - estão abarrotando as prisões com jovens, negros e pobres. Prisão em massa de uma só classe: a trabalhadora. É direito penal máximo para os pobres e direito civil empresarial máximo para os enriquecidos. Cadê os direitos fundamentais da pessoa humana? Virou lugar comum juízes apressadamente conceder liminares de reintegração de posse sobre Ocupações coletivas urbanas ou do campo. Só em Minas Gerais há mais de 250 liminares de reintegração de posse para serem cumpridas, na quase totalidade versando sobre propriedades que estavam abandonadas, ociosa, sem cumprir função social.
Simplesmente a regra é “reintegre-se ficando autorizado o uso da força policial.” Isso sem garantir os inúmeros direitos fundamentais de milhares de pessoas. A Constituição Federal de 1988 não tem como fundamento a dignidade humana (art.1º)? Não prescreve a Constituição a função social para propriedades do campo e na cidade? (art. 5º. XXIII, art. 283 e 286 da CF)? Não determina direito à moradia, à saúde, à educação, a paz? Não é objetivo da CF/88 superar a miséria e as desigualdades (Art. 3º)?
Mas, muitos juízes estão tão distantes da realidade dos pobres que mandam retirar centenas de pessoas de uma ocupação coletiva como se fossem entulho que lá estivesse.
Considerando que a maioria dos juízes “não tem tempo” para ir visitar as ocupações, ouvir os clamores dos pobres, vamos descrever um pouco o preço de um despejo sem alternativa digna. Vale recordar que alternativa digna não é levar as famílias para abrigo público, ou para bolsa moradia, ou inscrever as famílias em uma fila de política habitacional que não existe ou se existe, não anda.
Tomemos como exemplo o despejo de 300 famílias da Ocupação Santa Cruz, em Montes Claros, MG, dia 05 de junho de 2014. Usaram 250 policiais da tropa de choque e de vários outros batalhões da Polícia Militar de Minas Gerais; quatro tratores, inclusive um de esteira; vários caminhões, mais de quarenta viaturas, helicóptero, cavalaria, cães, inúmeros aparelhos de comunicação etc.
Senhores juízes, quanto custa preparar e realizar uma operação como essa? Quanto em alimento, água, combustível e arsenal bélico? Não sabemos quanto custa, mas sabemos que quem paga é o povo, através de uma pesadíssima carga tributária jogada principalmente nas costas da classe trabalhadora. É daqui que vem orçamento para custear o Estado que golpeia quem o sustenta financeiramente: o povo injustiçado. Quantos milhares de famílias ficaram sem segurança pública, porque um enorme contingente policial foi deslocado para despejar quem luta para sair da cruz do aluguel?
Só na Ocupação Santa Cruz, destruíram 80 casas de alvenaria. Em média as famílias tinham investido cerca de 8 mil reais em cada casa. 80 casas vezes 8 mil reais é igual 640.000,00 (Seiscentos e quarenta mil reais), valor equivalente ao que os turistas da COPA gastarão em Belo Horizonte. Mais da metade desse dinheiro, cerca de 400 mil reais, foi conseguido em empréstimo para descontar durante 4 ou 5 anos na aposentadoria de um salário mínimo. Ou seja, 80 famílias perderam 640 mil reais e perderam suas casas. Ficaram sem casas e com uma dívida que durante uns 4 ou 5 anos comerá parte da migalha de aposentadoria que recebem. Se o povo tivesse uma aposentadoria equivalente à dos juízes e desembargadores, o prejuízo seria menor.
Mas não é só esse o preço de um despejo sem alternativa digna, que é reassentamento prévio, conforme já vem sendo feito por determinação de alguns juízes em Pernambuco e no Rio Grande do Sul.
Centenas de famílias foram jogadas novamente na cruz do aluguel, que é furto diário no prato dos pobres. Ou foram jogadas nas costas de parentes que normalmente já pagam aluguel também. É cruz em cima de cruz. “A gente toma café da manhã com aluguel, almoça aluguel, janta aluguel e dorme com aluguel. Não suportamos mais isso”, desabafou dona Maria, da Ocupação Tomás Balduíno, de Ribeirão das Neves, MG.
Não esqueçamos que há um preço muito maior do que o prejuízo econômico: um despejo sem alternativa digna mata o sonho de conquistar moradia própria e digna, sonho de décadas. Imaginem quantas lágrimas! Quanta decepção nas autoridades! Quanta frustração diante do poder representado pelos governantes. Onde fica a legitimidade da força do Estado brasileiro? Quantos traumas indeléveis nas centenas de crianças que veem um exército armado até os dentes diante de si derrubando suas casinhas e expulsando-as do lugar onde elas brincavam e corriam à vontade?
Após um despejo, com a indignação gerada, como em uma encruzilhada, duas estradas se abrem: Por um lado, a maioria do povo despejado se reúne e trata de organizar a luta para dar a volta por cima, assim como fizeram a Ocupação Zilah Sposito/Helena Greco, que, após ter 15 casas demolidas inclusive com gás lacrimogêneo em crianças, reergueu-se e, hoje, já tem mais de 170 casas de alvenaria construídas. Ou como a Ocupação Eliana Silva, no Barreiro, em Belo Horizonte, que, três meses após ser despejada por 400 policiais reocupou outro terreno e hoje já tem mais de 300 casas de alvenaria construídas. Ou ainda como as duas Ocupações da Fazenda Baixa Funda, em Manga, MG, que já passou por 12 despejos e sempre o povo volta a reocupar a terra. Mas por outro caminho, outras pessoas ficam revoltadas e são jogadas na criminalidade. Assim, despejos forçados fomentam a violência social.
Quem puder ler e ouvir, que veja, que ouça e faça diferente dentro e fora do Poder Judiciário!
Mas assino embaixo do que afirma um juiz justo: Gerivaldo Neiva, no poema ao povo do Pinheirinho, Não os perdoem: eles sabem o que fazem!
“... Ei, Justiça, cadê você que não responde e aceita impassível tantos absurdos?
Não percebes o que estão fazendo com teu nome santo?
Em teu nome, atiram, ferem, tiram a casa e roubam os sonhos e nada dizes?
Tira esta venda, vai!
Veja o que estão fazendo em teu nome! Revolte-se!
E o pior dos absurdos: estão dizendo teus os atos do Juiz e do Poder que ele representa!
Vais continuar impassível?
E mais absurdos: estão te transformando em merdas de leis.
Acorda, vai!
Chama o povo, chama o Direito das ruas e todos os oprimidos do mundo e brada bem alto:
- Não blasfemem mais com meu nome! Não sou o arbítrio e nem a ganância! Não sou violenta, nem cínica e nem hipócrita! Não sou o poder, nem leis, nem sentenças e nem acórdãos de merda!
Diz mais, vai! Brada mais alto ainda:
- Eu sou o sonho, sou a utopia, sou o justo, sou a força que alimenta a vida, sou pão, sou emprego, sou moradia digna, sou educação de qualidade, sou saúde para todos, sou meio ambiente equilibrado, sou cultura, sou alegria, sou prazer, sou liberdade, sou a esperança de uma sociedade livre, justa e solidária e de uma nação fundada na cidadania e dignidade da pessoa humana.
Diz mais, vai! Conforta-nos:
- Creiam em mim. Um dia ainda estaremos juntos. Deixarei de ser o horizonte inatingível para reinar no meio de vós! Creiam em mim. Apesar da lei, do Poder Judiciário e das sentenças dos juízes, creiam em mim e não perdoem jamais os que matam e roubam os sonhos em meu nome, pois eles sabem o que fazem!”




[1] Frei e padre carmelita; bacharel e licenciado em Filosofia pela UFPR, bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutorando em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB, PJR e Via Campesina, em Minas Gerais; e-mail: gilvanderlm@gmail.com  –www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br - www.twitter.com/gilvanderluis - facebook: Gilvander Moreira